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Por shocu
Telegram: @shocu7
Publicado originalmente em MAPness:
http://mapness.home.blog/2020/01/21/mal-entendidos-e-atitudes-com-respeita-a-pedofilia-atracao-por-menores/

Para muitos, a palavra “pedofilia” ou “pedófilo” evoca imagens negativas de monstros impassíveis e abuso infantil. Isso não é de surpreender, pois a maioria das pessoas tem sido exposta ao termo puramente através de representações de alguns dos piores crimes imagináveis. A mídia e a sociedade em geral têm usado consistentemente o termo “pedófilo” como sinônimo de “abusador de crianças”, “estuprador de crianças”, etc. Esse uso do termo tem levado à interpretação do pedófilo como alguém que só se importa com fazer o mal, como alguém sem compaixão, como alguém que não se importa com o bem-estar das crianças, como alguém “malvado”. Essa imagem, porém, é uma enorme deturpação e um simplismo que leva a muitos mal-entendidos e muita desumanização. Embora a exploração sexual das crianças é, infelizmente, algo que sem dúvida existe, descrevê-la exclusivamente com a palavra “pedofilia” é muito impreciso, pois isso não é o que significa o termo. De fato, tem uma falta geral de compreensão de quem são estas pessoas e uma confusão com respeito ao significado de alguns termos referentes a elas.

Portanto, antes de poder entrar numa discussão e elaboração mais aprofundada sobre o supradito, devo primeiro esclarecer os significados de certos termos, já que o mau uso deles é precisamente o que causa tanto mal-entendido quando se fala desse tópico.

Comecemos pelo vocábulo mais destacado, o termo que todo mundo tem escutado mas do qual sabe pouco: pedofilia. Como mencionado, a maioria das pessoas associa esse termo com o abuso sexual de crianças, mas na verdade não é tão simples assim. Um pedófilo é alguém atraído sexualmente por crianças pré-púberes. Aqui “pré-púbere” refere-se a crianças que ainda não chegaram à puberdade, geralmente entre as idades de 5 e 11 anos. Deve-se enfatizar a parte de “atraído sexualmente”: a pedofilia não significa abusar sexualmente de crianças (de fato, não é uma ação, quer dizer, ninguém pode “fazer” pedofilia). É simplesmente uma atração, uma preferência sexual. Não é muito dessemelhante dum homem que acha seios atraente ou até de alguém atraído pelo mesmo sexo ou pelo sexo oposto. E semelhante a adultos atraídos por outros adultos, um pedófilo não é necessariamente um abusador. É possível que seja, claro, mas o mesmo pode-se dizer de qualquer um. Estar sexualmente atraído por alguém não é o mesmo que decidir agredir sexualmente alguém.

Como referido, a pedofilia é a atração por crianças pré-púberes, mas e quanto a outros grupos etários? Embora a palavra pedofilia usa-se frequentemente para se referir à atração por menores de qualquer idade, existem outros termos mais específicos, ainda que menos comuns. Por exemplo, um hebéfilo (hebefilia) é alguém atraído por menores púberes, ou seja, pré-adolescentes ou adolescentes na puberdade, geralmente entre as idades de 11 e 14 anos. Também tem os efebófilos (efebofilia), que estão atraídos por adolescentes pós-púberes (depois da puberdade), geralmente entre as idades de 15 e 17 anos. Se se trata duma atração por bebês ou meninos de muito pouca idade, isso seria nepiofilia (nepiófilo). Semelhante à pedofilia, esses termos descrevem uma atração sexual, não a ação de fazer sexo com um menor.

Todas essas “-filias” às vezes são chamadas de cronofilias: a atração por certas faixas etárias. Há mais duas cronofilias: a teleiofilia (teleiófilos), que é a atração por adultos (por outras palavras, a maioria das pessoas), e a gerontofilia (gerontófilos), que é a atração por idosos.

Nota-se que essas cronofilias não necessariamente se excluem entre si. Alguém pode achar várias faixas etárias ou até tanto menores como adultos atraentes. Por exemplo, eu sou maiormente hebefílico, mas é possível que ache atraentes algumas crianças pré-púberes maiores (que tipicamente se consideraria pedofilia), assim como alguns jovens pós-púberes mais novos (que tipicamente se consideraria efebofilia).

Já que tem várias cronofilias que descrevem uma atração por menores, há muitos que optam usar um termo mais abrangente ao falar da atração por menores em geral: MAP. MAP é um acrônimo inglês que significa minor-attracted person: pessoa atraída por menores. Alguns sites e usuários na Internet têm interpretado esse termo como um eufemismo para pedófilos, como uma maneira de “abrandá-lo” ou “dissimulá-lo”, mas isso está errado (e, novamente, baseado em suposições do que é um pedófilo). MAP é um termo geral que inclui a nepiofilia, a pedofilia, a hebefilia e a efebofilia. Portanto, MAP não é sinônimo de pedofilia, pois isso excluiria as outras cronofilias. Descrever todo tipo de atração por menores simplesmente como “pedofilia” apresenta uma imagem muito imprecisa e problemática onde a atração por, digamos, alguém de 5 anos se vê da mesma maneira que uma atração por alguém de 17.

Existem também MAP exclusivos e não exclusivos. Os MAP exclusivos só acham menores atraentes, enquanto os não exclusivos podem estar atraídos tanto por menores como adultos. Essas categorias não se devem considerar como uma divisão estrita entre dois “tipos” de MAP, mas como uma espécie de espectro onde um MAP pode-se identificar como uma ou outra. Por outras palavras, alguém que se identifica como exclusivo ainda pode achar certos adultos atraentes em certas circunstâncias. Esses termos descrevem na maior parte quão “forte” é a preferência sexual de alguém por menores em comparação com a que tem por adultos. Um MAP também pode ser heterossexual, homossexual ou bissexual. No caso da atração por menores, isso refere-se à atração por garotos ou garotas (ou ambos).

De novo, um MAP não é necessariamente alguém que abusa de crianças. Alguém que abusa sexualmente de crianças se chama de estuprador de crianças. Um MAP pode ou não ser um abusador, igual que alguém atraído por adultos pode ou não decidir abusar sexualmente de outro adulto que ache atraente. É injusto presumir que alguém queira causar danos baseado unicamente na sua preferência sexual. Além disso, os estupradores de crianças também não são necessariamente MAP. Algumas pessoas podem decidir abusar dum menino não necessariamente por estar atraídos por ele, mas por uma miríade de outras razões, como o fato que é fácil tirar vantagem de crianças, oportunidade, vingança, etc.

Por último, gostaria de abordar brevemente uma distinção que existe entre os MAP. Muitos MAP identificam-se como anti-contato, enquanto outros identificam-se como pró-contato. Basicamente, os MAP pró-contato consideram que não toda interação sexual com crianças é necessariamente prejudicial, enquanto os MAP anti-contato consideram que é invariavelmente prejudicial. Embora eu não vou aprofundar muito nesse debate, pois estaria entrando em outro tema, sinto que mesmo assim é importante salientar que até os MAP pró-contato não necessariamente se relacionam sexualmente com crianças, conquanto tenham uma opinião impopular mesmo entre muitos MAP. Nota-se igualmente que alguns MAP não necessariamente se identificam como um ou outro, e inclusive há alguns que se identificam como neutro-contato.

Neste ponto é imperativo mencionar um aspecto importante que muitas pessoas não percebem: essas atrações são inatas, ou seja, ninguém escolhe ser nepiófilo, ou pedófilo, ou hebéfilo, ou efebófilo. Igual à maioria, os MAP descobrem sua sexualidade durante a puberdade, e não têm nenhum voto em como será essa sexualidade. Ninguém pode escolher que atração tem. Nesse sentido, não é muito dissemelhante da homossexualidade ou da bissexualidade na medida em que os homossexuais/bissexuais têm uma atração sexual (que nunca escolheram ter) extremamente estigmatizada na nossa sociedade. Pode que alguns descrevam a atração por menores como algo “mau“ ou “perverso”, mas como se pode imputar moralmente alguém por algo que não pode controlar (sua atração sexual)? Seria como determinar as intenções ou a integridade moral de alguém baseado na cor da pele ou na forma do nariz.

Claro, um contra-argumento comum seria que um homossexual ou bissexual (teleiófilo) pode estar num relacionamento consensual com outro adulto, enquanto o equivalente para um MAP seria problemático para dizer o mínimo. E isso seria certo, mas é injusto presumir que a maioria dos MAP pretende se relacionar sexualmente com crianças. Os MAP não são animais salvagens que se regem por instinto; talvez tenhamos esta atração, mas isso não significa que não possamos nos controlar. Estar atraído por alguém não é o mesmo que querer fazer-lhe mal, e de fato, a maioria dos MAP não deseja fazer mal nem a crianças nem a ninguém.

Infelizmente, devido ao estigma contra essa atração, muitos MAP têm que suportar muita hostilidade social; são visto como monstros mesmo se não fizeram nada de errado. São considerados pessoas inerentemente más apesar de nunca terem escolhido ser MAP. Imaginem um adolescente jovem que se dá conta de que está atraído por crianças. Agora misturem isso com as histórias horrorosas que tipicamente se escutam sobre os pedófilos/MAP. Esse adolescente sentirá que será considerado um monstro sem poder fazer nada a respeito. De fato, a falta de boas informações sobre esse tema pode até levá-lo a pensar que abusar de crianças é uma consequência inevitável da sua atração. Isso, claro, não é verdade, mas para alguém que mal está descobrindo sua sexualidade, a quem pode recorrer para poder entender isso? A quem pode recorrer para receber apoio? A vida dum MAP é em geral muito isoladora. A maioria deles não pode falar sobre o assunto com amigos próximos ou com familiares por medo de ser visto com repulsa. E como se isso não fosse suficiente, se eles tentarem procurar informações na Internet, podem-se deparar numa mistura de boas informações e aberta hostilidade. Talvez possam encontrar algumas explicações básicas sobre o que é e o que não é a atração por menores. Talvez até encontrem vídeos ou artigos como este, que tentam representá-los de maneira positiva pelo que são: humanos. Entretanto, o mais provável é que encontrem também muitos outros vídeos, artigos, tweets e comentários que respondem a essas representações supraditas com ojeriza, comparando-o com defender assassinos, declarando que o mundo está enlouquecendo e, em alguns casos, exigindo a nossa execução. Imaginem o que isso pode fazer a uma pessoa, sobretudo um adolescente jovem.

Lembro-me de ter passado por uma experiência similar durante a minha adolescência (e durante o início da idade adulta). Ter a impressão de que o mundo inteiro odeia você e deseja vê-lo morto por apenas existir é devastador, desumanizante, cruel. As pessoas não conseguem ver além da nossa atração imutável e presumem que não passamos de monstros ou bombas-relógio. Isso leva muitos MAP à depressão, e sem poder falar sobre o assunto, essa depressão muitas vezes fica desatendida. Isso aconteceu comigo durante minha adolescência, e não tenho dúvida alguma de que muitos outros adolescentes pelo mundo estão passando pelo mesmo enquanto escrevo isto.

Claro, alguns diriam, é tudo com o fim de proteger crianças. Mas, novamente, por que se deve presumir que somos um perigo? Por que devemos ser privados da nossa dignidade e nossos direitos humanos com base na possibilidade de que alguém decida fazer mal a outra pessoa? Isso, aliás, é algo que a maioria dos MAP não pretende fazer, pois, como a maioria dos humanos, nos perturba a ideia de causar danos a outros. Essa possibilidade também não é exclusiva a aquilos atraídos por menores. Por acaso deveríamos recusar ou inclusive encarcerar todo homem heterossexual (teleiófilo) com base na possibilidade de que alguns deles possa decidir violentar mulheres?

Essa abordagem de desumanizar todo MAP faz pouco para impedir a exploração sexual de crianças e, em vez disso, causa sofrimento para inocentes. Há muito pouco esforço dedicado a encontrar como estas pessoas podem integrar-se na sociedade duma maneira sã. Para muitos MAP, simplesmente ter alguém com quem falar já pode fazer muito para ajudá-los a lidar com sua sexualidade. Para jovens descobrindo sua sexualidade, ter recursos disponíveis que possam explicar o que é e o que não é essa atração pode ajudar a impedir muita ansiedade e confusão, como também pode ajudar aquilos que não são MAP a ficar mais informados sobre esse tema. Quanto a anseios sexuais, pode ser tentador dizer que os MAP simplesmente deveriam se abster de todo pensamento sexual. Porém, a repressão total da sexualidade não é necessariamente sã, e pode levar a problemas psicológicos no futuro. Embora esta ideia seja desconfortável para muitas pessoas, a masturbação e a pornografia simulada (fictícia) podem servir como alternativas saudáveis para pessoas atraídas por menores. Lamentavelmente, é difícil determinar com certeza se essas saídas podem ser verdadeiramente efetivas para esses anseios, pois o tabu associado a esse tema tem acarretado muito pouca investigação dedicada a ele.

Um argumento comum que vejo quando se fala sobre isto é a preocupação de que isto possa “normalizar a pedofilia”. Essa frase, porém, acho problemática. O que exatamente se quer dizer com essa frase? É uma expressão vaga, e acredito que se origina duma má interpretação do que significam estes termos. Por um lado, a frase tende ser “normalizar a pedofilia”, mas isso já demostra certa ignorância sobre o tema, pois, como já dito, a pedofilia é só uma de várias cronofilias que descrevem uma atração por menores. Talvez uma frase mais precisa seria “normalizar a atração por menores”, mas isso ainda é um tanto vago, como explicarei a seguir.

O que significa “normalizar” a pedofilia / atração por menores? É a aceitação de relações sexuais entre adultos e crianças na nossa sociedade? Porque na maioria das vezes que esse tema surge, isso não é o que se está argumentando de todo. Será a “normalização” do fato que pessoas com essa atração existem? De que modo seria frutífero ignorar a nossa existência? Quer gostemos ou não, pessoas como eu existem, e fingir que isso não é o caso só pode piorar a situação para todos.

Talvez essa “normalização” refere-se à aceitação de ajudar pessoas com essa atração a lidar com sua sexualidade de forma que não seja prejudicial nem para elas nem para crianças. Por que isso é algo ruim? Realmente é melhor marginalizar, isolar e desumanizar todo um grupo de pessoas unicamente por um aspecto imutável de sua existência? Ou talvez essa “normalização” refere-se a permitir que pessoas tenham pensamentos sexuais que envolvam crianças. Embora possa entender como alguns podem achar essa noção desconfortável, abordar esse assunto desta perspectiva se assemelha perigosamente a querer controlar os pensamentos das pessoas, ou seja, impor um crime de pensamento. Pode-se pensar que ter pensamentos sexuais sobre crianças é inerentemente imoral, mas os pensamentos sexuais são só uma parte natural da sexualidade. Como se pode repreender alguém por ter fantasias sobre o que acha atraente? De qualquer modo, a repressão total da sexualidade, incluindo os pensamentos sexuais, mal parece uma alternativa preferível. Afinal das contas, os pensamentos não podem machucar ninguém. É só quando alguém decide agir que devemos nos preocupar, e não devemos presumir as intensões de outros baseado em coisas como pensamentos sexuais. De novo, seria justo presumir que alguém que tem fantasias sobre um adulto pretende fazer-lhe mal?

Outra possibilidade que consigo pensar com respeito ao que se quer dizer com “normalizar” é a “normalização” da discussão de questões pertinente aos MAP. Embora muitas pessoas possam ficar desconfortáveis ao falarem sobre esse assunto, como se pode atingir um melhor entendimento e soluções que possam servir para todos se simplesmente censuramos os tópicos que não gostamos? E mais do que isso, o que devem fazer as pessoas com essa atração se não podemos nem pronunciar-nos contra a maneira que somos tratados? Nunca devemos temer o discurso. Se decidimos que simplesmente não podemos falar de certos temas porque os achamos desconfortáveis ou desagradáveis, qual então seria o propósito e o valor da liberdade de expressão? Silenciar-nos é privar-nos dos nossos direitos humanos básicos (que, novamente, contribui para a nossa desumanização).

Por último, gostaria de abordar outro equívoco sobre os MAP. Tenho percebido que há pessoas que nos imploram a “procurar ajuda” quando escutam sobre nossa atração. Embora esse gesto seja certamente mais apreciado do que os típicos insultos ou ameaças, ainda sinto que é desacertado. Em muitos casos é imperativo que um MAP “procure ajuda” (“ajuda” neste caso refere-se à psicoterapia). Isso inclui sentir que não se podem controlar os impulsos sexuais, sentir angústia devido à atração por menores, sofrer de depressão, precisar de ajuda para lidar com a atração, etc. Nota-se que até nesses casos um MAP ainda pode-se sentir dissuadido de ir a terapia, pois muitos terapeutas carecem da formação e a experiência para tratar um assunto assim, e em alguns países tem leis que incentivam em grande parte os terapeutas a informar as autoridades sobre alguém que considerem um risco, mesmo se não o é. Tem mais consequências legais para terapeutas por não informar sobre alguém que acaba por cometer um crime que por informar alguém desnecessariamente.

No entanto, quando vejo pessoas implorar-nos a “procurar ajuda”, sinto que têm outra coisa em mente. Parecem ter a impressão de que um MAP, simplesmente por ter essa atração, deveria visitar um psiquiatra para “consertá-lo”. Esse raciocínio faz vários pressupostos errados, o mais grave sendo que a preferência sexual se pode alterar. Não só é impossível “livrar-se” da atração por menores: sugerir tal coisa assemelha-se perigosamente a um argumento a favor das terapias de reorientação sexual, já que supõe que uma atração sexual “indesejada” se pode simplesmente alterar usando métodos adequados. Muitos homossexuais no passado (e às vezes hoje em dia, infelizmente) tiveram que sofrer tratamentos atormentadores com a expectativa de que isso os tornaria “normais”, mas essas “terapias” têm demonstrado repetidamente ser vãs. Além do mais, o dano físico e emocional que tais tratamentos podem causar para alguém só pode ser prejudicial. Por que é que uma grande parte da sociedade tem determinado que tentar mudar a sexualidade dum homossexual está errado, mas que não aplica a mesma lógica para pessoas atraídas por menores? Claro, há o argumento de que um homossexual teleiófilo pode estar num relacionamento são e consensual. Porém, se estaria supondo novamente que ter uma atração necessariamente significa agir. Os homossexuais não foram submetidos a terapias de reorientação sexual com o propósito de impedir que se relacionassem com pessoas do mesmo sexo; foi mais porque a atração em si era visto como algo que precisava de “conserto”.

Apesar da angústia e da ansiedade que tive quando descobria minha sexualidade, hoje sinto-me muito mais à vontade com ela. Sei que não significa que perderei de repente a compaixão nem começarei a ansiar fazer mal. Sei que não sou uma má pessoa por ter essa atração. Decidi visitar um psiquiatra mesmo assim, só para escutar sua opinião. Afinal ele determinou que eu não representava perigo algum para crianças. Ele viu que, apesar da minha atração, não pretendia fazer mal a ninguém, e que já tinha aprendido a lidar com minha realidade há muito tempo. Como não tinha nada mais a fazer, decidimos terminar as sessões aí. Desgraçadamente, muitos MAP sentem mesmo aflição sobre isso, e as atitudes hostis que surgem com respeito a esse tema não ajudam a aprimorar a situação.

O mal-entendido dos termos mencionados, assim como a atitude geral e o tratamento dos MAP, creia uma situação onde somos constantemente desumanizados só por existir. Diria inclusive que somos um grupo oprimido. Somos vistos como subumanos, monstros e bombas-relógio. Muitos de nós tivemos uma infância como qualquer outra, passatempos como qualquer outro, aspirações como qualquer outra, e no entanto, devido à nossa preferência sexual, somos sujeitados a sentir que somos menos que humanos. Nem podemos falar disso sem assumir o risco de ser marginalizados. Já vi pessoas exigirem a morte de pessoas como eu, com expressões como “a única cura é uma bala na cabeça” ou “o único pedófilo bom é o que esteja morto”, enquanto são encorajadas. É genocida. E nas raras ocasiões em que se fala de nós como algo além de demônios, manifestam-se em seguida sentimentos de repugnância e histeria. Como é que se pode considerar isso outra coisa senão desumanizante e opressivo?